A primeira vez em que me deparei
com a poesia de Luís Venegas foi em 2008, na entrada de uma palestra sobre
Poesia Concreta que seria realizada na Letras / USP. O autor em questão, com
quem eu já tinha trocado algumas palavras de corredor, distribuía uma sulfite
sanfonada com alguns poemas. A princípio
achei os textos herméticos, mas a maneira através da qual estavam construídos,
isto é, o trabalho rítmico, me despertou empatia.
Mais tarde, adquiri um exemplar
de “h á s a c i n a f o m e”, publicado em 2009 pelo selo [e]editorial. Ao
lê-lo, comecei a compreender melhor a complexidade da poesia de Luís. Trata-se de uma proposta que mescla registros
eruditos e populares. Há poemas, por exemplo, em que a voz enunciadora começa
formal, erudita, e, no verso ou na estrofe seguinte, migra para a informalidade.
Há outros em que apesar do discurso parecer bem informal, vários intertextos
eruditos fazem-se presentes. Estas misturas, no entanto, estão longe de ser novidade para quem se interessa
pelo fazer poético. O que me pareceu novo, atrativo, com potencial enriquecedor,
foi a modo através do qual Luís lança mão de recursos rítmicos, tais como a
palavra-valise e a atomização vocabular, para desestabilizar o sentido que o
poema teria numa leitura convencional, criando uma tensão (ou ginga) cômico-irônica.
Vejamos um exemplo retirado de “Gosto de Fruta”, que é o título da sulfite
sanfonada de 2008 :
aerona veche gabiru tastre mulam
É justamente deste poema-verso
que vem o nome da antologia mais recente que Luís organizou (agora em 2012):
“aeronave chega birutas tremulam”. Em 2008, tal título vinha embaralhado, simulando
uma espécie de provérbio em língua estrangeira. Assim como este caso, grande
parte dos poemas de Luís é composta por vocábulos fatiados e passíveis de
ressignificação por parte do leitor; trata-se de uma leitura que flui e reflui,
que requer atenção, que não se entrega de primeira.
A principal característica da
poesia de Luís, no entanto, parece ser a modificação, o reaproveitamento, a reciclagem
da matéria poética. Quem acompanha seus escritos há alguns anos, como é meu
caso, percebe como ele vai construindo variações dos mesmos temas, por vezes
fundindo antigos textos, gerando novidades, como acontece na nova antologia
supracitada. Observemos, como exemplo, o andamento que teve um de seus textos, de
2008 à atualidade:
de
vez em quando me surpreende a vida
o
sentido de fundo do quintal
pagode
com caninha embebida
e
caco de telha escrita com sal
muito
interior deste barato mato
todo
torto por dentro moço e de óculos
pensando
distintamente em você
teia
inteira e aranha desconfiada
tenho
reconhecido e desacordo
neblina
densa por falta de rumo
esqueço
a bagagem visto que abordo
enxergo
o futuro
envergando
e sumo
(2008)
|
sardinhada do zé
de
vez em quando me surpreende a vida
o
sentido de fundo do quintal
pagode
com caninha embebida
e
caco de telha escrita com sal
muito
interior deste barato mato
todo
torto por dentro moço e de óculos
pensando
distintamente em você
teia
inteira e aranha desconfiada
tenho
reconhecido e desacorda
neblina
densa por falta de rumo
esqueço
a bagagem visto que aborda
enxergo
o futuro envergando e sumo
(2009)
|
vez em quando a surpreendo
assoprando pro fundo do quintal
pagode com caninha embebida
e caco de
telha escrita com sal
(2012)
|
|
Vemos que, com
a passagem dos anos, além de terem ocorrido a introdução e a remoção do título, alguns versos
foram modificados ou agrupados. Estas alterações culminaram no texto de 2012, que é
fragmento de um poema maior, o que caracteriza considerável diferença em relação à proposta de 2008.
O conjunto
destas hesitações, que também existem em outros textos, é indício de como Luís,
sem pudores, vai apresentando ao leitor os sulcos que o tempo desenha em sua
produção poética. Esse temperamento de ceramista que nunca deixa a argila secar,
fazendo com que ela sempre assuma formas novas, me parece ser sua maior lição: priorizar
o processo em detrimento do produto final, não se deixando obsecar pela ilusão
do acabamento perfeito da obra de arte. Para aqueles que têm o fetiche pelo
escrito-cristal (grupo no qual me incluo), tal ensinamento é relevante, já que
sugere menor pudor no trato com textos próprios, o que não quer dizer flerte
com a efusão lírica kardecista, mas sim maior liberdade de experimentalismo,
que , sabemos, é o elemento-fonte da invenção.
Fica minha
saudação ao Luís, juntamente com o poema final de “h á s a c i n a f o m e”,
autorretrato poético e político:
n o pa sa re s e
qui valencià
a extrema
direta
já podemos
passear no espaço
o valor da
viagem poderá ser pago a prazo?
mais uma
direita
puta
vagabundo inconveniente
sempre
andarei com a palavra e faço
pra parecer
papelvaretafiorabiola
colar e
sentir isso sem dúvidas
de que no
tênis tem barro
o o l h a r
de um bípede pensando
em c O m O
as mãos b a t r a l h a m

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