O d t p cs em curva sonora de
alusão ao digitar da máquina de escrever alemã portátil de Augusto de Campos,
usada na escrita de Poetamenos,
compõe o dáctilo-desejo por uma lygia que finge ser digital ou, melhor, que é
erigida em grypho – grafia-mito – por fingers
em ato de digitar. O desejo da presentificação, encenado pela própria escritura
composta pelo ritmo fonemático que parece aludir ao bater da máquina, é
performance; invocação, realizada na instância do processo de escritura, da
amada ausente; imperativo: “lygia, finge ser digital!”. No próprio digitar
do scriptor, lygia se faz, grafada
pelas teclas da máquina; a escrita é ded(ic)a(da)t, consagrada a ela, tenta
fazê-la presente. Trata-se de uma questão
de poesia e meio, de poesia e suporte, de poesia e processo.
Evidências rítmicas de tal interpretação: 1) fingers, em “g” oclusivo, os dedos no processo de escritura ou as
mãos que tentam alcançar a amada ausente, ligados a “grypho”, também de “g”
oclusivo, que alude à amada mitologizada pela escritura (grypho: ser mitológico
e termo relacionado a “grafia”); e 2) finge,
com “g” fricativo, ligado a “digital”, também de “g” fricativo: declaração
performática que a escritura, digital, faz, invocando lygia. Tratam-se, assim,
de rimas consonantais sutis que orientam a interpretação apresentada acima.
Evidência de que esse ritmo foi pensado: a hesitação no manuscrito, antes de
datilografar:
“lygia fingers”, ou melhor, “lygia finge / rs”.
Livíria, Rivília, Irvília, Vilíria, Lygia: anagrama paronomástico rosiano.
Uma lygia que se apresenta – miragem –
e se rarefaz, se dilui, igi al , illa g y , iglia , ly , l .
Da parte do escrever o poema, um enigma-busca, como o por so
lange so (hl),
nome que impressionou Augusto na década de 50, em publicações de jornal, e que,
vários anos depois, foi descoberto como sendo pseudônimo de Pagu :
Ou é um grupo de vidros combinados? Uma lenda
Medieval que vestes de neurose? (...)”
(O Sol por Natural, 1950-51,
Augusto de Campos)
Se por um lado há a invocação da amada, em solicitação performática, por
outro há a escritura contradizendo – embaralhando, enevoando, embaçando – o
nome da amada; um anseio que revela-se auto-combustivo. Apesar das
positividades do núcleo do poema: mãe / com / me / sim, há também o semi-árido
do limiar da significação: nx, tt.
Cria-se, assim, uma tensão. Como a existente na dissonância rítmico-prosódica:
“figlia me felix sim na nx” , “so only lonely tt l”; prosódia pouco
portuguesa, ou, antes, nova prosódia portuguesa, engendrada por imbricações com
idiomas outros: tensão interna da língua, sua origem, história, e futuro, como acontece nos textos atribuídos a Gregório de Matos, que mesclam português com tupi: “Cobepá, Aricobé, Cobé, Paí”.


Nenhum comentário:
Postar um comentário