Uma antologia de poemas meus. Há textos dos livros Réquiem (2012) e Constelário (2016), bem como um texto publicado na antologia É Que os Hussardos Chegam Hoje (2014) e outro na Revista Mallarmargens.
GRAU ZERO.
o bem-te-vi abre a garganta
e, se auto-intitulando, canta.
o ouvido modula tal frase
e supõe no canto um texto.
o olvido, para outro eixo.
para novo começo, o zero.
muda o ouvido: tom por tom
o bem - te - vi emite sons.
o canto se desfaz, só som.
o nome se esvai - ave, só.
o pássaro, com só a voz,
volta a entoar o som do om.
(de Réquiem, 2012)
PERU.
nas escarpas da Velha Montanha
flashes ofuscam a luz do sol,
solas trazem detritos de países vários;
a terra chã - solo – mal ainda é Peru.
perpetuado, porém, é, ainda
o sangue cristalizado em Cajamarca.
a cabeça rolada para chão já cristão,
tal qual ouro sobre azul,
era, aqui, antes,
como o dente-de-leão
há para ser soprado.
atahualpa, penso em ti.
(de Réquiem, 2012)
CEMITÉRIO MINEIRO (OURO PRETO).
quem caminha, por aquela ladeira
à noite,
e pára, para um golpe de olhar noturno sobre a cidade,
na amurada,
tem a visão puxada, pelo branco fosco das campas achatadas
à direita,
que mal-dissimulam um adro à beira de um vão
-
desfiladeiro.
o que se diz é que o lugar é cemitério dos escravos de outrora.
longe dos batuques das senzalas ou das danças ativadas por chicotes,
porém,
o que o mirante ressoa é o silêncio agudo da noite
como o possível som que, vibra dentro das pedras do calçamento.
nulo,
(de Réquiem, 2012)
ANÃ BRANCA.
(de Réquiem, 2012)
CONCLAVE.
sujos de barro, os tênis, quantos! na Praça
de São Pedro; contra a fumaça, em nacos,
da chaminé romana, verbo encarnado: nós.
à Capela! que, só pedra, passível
de assédio. no altar, Jesus
fora da cruz! agora, no lugar, pregado,
um espantalho,
e bem na hora do pouso do espírito santo.
(da antologia É Que os Hussardos Chegam Hoje, 2014)
***
sequer o céu é sincero:
a estrela que cintila
não é a estrela que cintila,
visto que, na real,
imagem antiga.
o escuro que anoitece
não é o escuro que anoitece,
visto que, de onde vem,
já se fez brilho.
iria, eu, de volta,
fosse aceito,
a um céu do presente
em que uma estrela extrapolasse
ser mera brasa enganosa:
talvez, quem dera, farol
(visto que agora é lanterna traseira)
de um carro-tempo mais-que-perfeito.
(de Constelário, 2016)
***
à lâmina d’água, peixes a boiar,
palafitas à vista – sob cheiro intratável,
o da consciência das cidades:
o rio Tietê, o Yangtze, o Reno,
o Newtown, o Ganges, o Congo,
também o Marilao e o Citarum:
artérias à espera de angioplastia,
à espera, como os cabelos verdes,
arrancados pelo gado, pela soja,
pelo contrabando de troncos,
pelo projeto progressista que,
no pecado Capital da gula de Gargântua,
diz não poder parar:
dita flor que, se for, só se do Jardim Gramacho.
no que aviões furam a cúpula de nuvens,
calota poluída sob a qual,
ruído,
gases de automóveis ascendem,
paradigma para os graus centígrados:
escalpelado de seus polos, o planeta,
nave abafada, a nos cobrar o óbolo.
(de Constelário, 2016)
***
eu, a La Lucien, na corte aos astros
literários, de fato, dizem,
são os poucos que se fixam,
perenes, na cúpula de cristal;
por vezes, entre tais mestres, no firmamento,
um cometa itinerante, um texto em jornal
a cada cinco anos,
concessão da confraria celeste,
no fim, só aberta
aos de coluna vertebral bastante flexível;
no barco furado das ilusões perdidas,
sob o pulsar dos dentes do céu de escárnio,
caninos por triturar os cosmonautas,
o fosco brilho final, submarino, a se ver:
houvesse esperança,
talvez fosse Absinto a cariar o constelário,
mas não:
a estrela abissal dos últimos dias da assassina fome.
(de Constelário, 2016)
***
F _ _ _ _ _
num jogo de forca com o espaço
formo caracteres ao ligar estrelas.
vasto, o céu, mas é tanto que erro,
que se vão as chances pelo constelário,
e ao me envolver nas letras do teu nome,
teia de tarântula que ataranta,
se apronta a corda, se prepara o laço,
a ponto de, quando menos espero,
furado, meu papo de amor liberado,
se gerarruínar uma quase esperança,
que me embarga a voz, que me consome,
conforme me rouba o chão, como ao enforcado.
(de Constelário, 2016)
O POETA HART CRANE DESAPARECE NO MAR.
sob sol a pino, o vento – não o tempestuoso,
cinzel de Deus que rescinde a carne do osso,
mas o burocrático, olho cerrado de furacão –
a descamar a safira por onde deslizava o Orizaba,
comboio marítimo – teu último – há pouco deixara o México
e, com ele, tua esperança – crackeada, a América – de um outro
[povo,
a teus olhos,encanto – os jovens por cujas carnes viaja o sangue
[asteca,
seus traços – maneiras – coxas – inexistente lanugem –
tanto quanto as listras dos marinheiros na tua cama,
transversais às outras – de ferro – contra as quais te jogaram,
por vezes, até a manhã arrefecer tua raiva e teu porre,
bem o teu estado naquele então, esvaziadas duas garrafas de gin,
contenda armada com a única mulher da tua vida, também a bordo,
e tantos revezes – inclusive naquilo a que devotou tua vida,
a escritura – que deram, frente a olhos incrédulos,
no teu salto mortal, e logo o mar,
voraz, não se sabe se alguma corrente –
distensão muscular – dente de tubarão; no mais,
lenda – pra mim, na certa, tua descida a Atlântida,
agigantamento e, mais que teu olhar tétrico de afogado,
à mão, feito harpa, sob teu dedilhar cujo presto – néon dos twenties,
cintilância em vibração – se irmana aos fluxos marítimos,
chegando às costas, aos ouvidos, às cidades, esplêndido
fracasso, os cabos da Ponte do Brooklyn.
(publicado na Revista Mallarmargens, 2016)


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