quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

apontamentos sobre a poesia de Leandro Rafael Perez.

Foram três, os livros lançados por Leandro Rafael Perez até o momento: lança além do real só (2011), turnê a meio mastro (2014) e pau mole (2017), todos publicados pela Editora Patuá. Há, neles, em comum, além das referências fálicas nos títulos, o fato de não se aterem a um tema único ou norteador, mas dedicarem-se à variedade de experiências sob o véu da carnadura : sexo, saudade, cidade, política, sucesso e fracasso da escrita, etc. Apesar de o autor indicar algumas divisões em seus dois últimos livros, seus poemas, na maioria da vezes, não têm título, o que gera uma sequência escritural de difícil classificação, condizente com a pluralidade de temas abordados. Tal convergência acaba por convidar o leitor para um mergulho no fluxo impuro, bravio, irregular da vida-linguagem, cujas águas muitas vezes turvas (“linguagem em estado de anuvio”, diz um poema de pau mole) confluem com a escrita de Leandro.

Essa sucessão de temas e textos é, em parte considerável das vezes, traduzida estruturalmente por um processo paratático, isto é, uma sequência de frases ou orações independentes, não subordinadas a outras. Em alguns casos, essa configuração se revela por sequenciamento de frases compostas por substantivos isolados, como “rua Adão Aranha, saudades do mar”, “mastodonte antena”, “milho asfalto barba ferrugem”, “sarjeta cominho”, “manada síncope” e “cutelo hecatombe”. Em outras ocasiões, há encadeação de orações coordenadas na qual a independência dos termos envolvidos se dá não no mesmo verso, mas ao longo do poema, como exemplifica um dos escritos mais interessantes de lança além do real só: “Quando chove em vários sentidos, / Só a incompletude descreve ciclos. / As piores cercas são as disfarçadas de escada. / A ótica que vende violões (…)”.

O procedimento paratático, bastante comum, por favorecer, em enunciações faladas no dia a dia, a memorização[1],  pode, também, ser encontrado na poesia de diversos autores. Mallarmé, por exemplo, é autor de versos como “Solitude, récif, étoile”. Marinetti, por sua vez, foi praticante das “palavras em liberdade”, que abriam mão de conectivos, conjunções e pontuação. Outro exemplo, Pound foi defensor da lógica ideogrâmica, pautada por cadeias de imagens sobrepostas, procedimento também praticado pelos poetas concretos brasileiros. Mais adiante no século XX, Robert Creeley foi dono de um fraseado fraturado repleto de parataxe. Mais jovem que Creeley, Lyn Hejinian criou um cipoal de aforismos, imagens e acontecimentos parcialmente esparsos na prosa poética My Life, de 1980.

Em certa medida, práticas como as supracitadas cintilam na poesia de Leandro. Entretanto, assim como a escrita dos autores mencionados, a do autor dos livros em questão não se limita à sacralização de substantivos dispostos via parataxe, como ocorreu, por exemplo, com Marinetti, criticado por Gertrude Stein, que defendia uma linguagem poética capaz de ir além dos substantivos. Para ela, conforme explica Lyn Hejinian[2], substantivos (nomes), obscurecem as experiências, substituindo por conceitos pré-concebidos aquilo que poderia ser experimentado de forma original, primeira. Contra isso, Stein propõe a exploração de outras categorias gramaticais, tais como advérbios e pronomes, capazes de revelar as ambiguidades da língua e gerar um texto mais aberto, baseado antes na relação do que na nomeação.

A recusa da intitulação dos poemas, a rejeição da rigidez-cristalização bem-acabada dos textos (algo bem evidente na série de variações “ele me disse que há restrições pesadas”, de pau mole, que expõe o processo escritural, as várias versões pensadas pelo autor para o poema) e as relações inusitadas, muitas vezes criadas pela própria parataxe, são elementos que aproximam a poética de Leandro da steiniana, ainda que ele não costume chegar a um grau de abertura no qual ambiguidades semânticas sejam, com mais implicações rítmicas, exploradas.

Pode-se dizer, então, que a obra de Leandro está entre essas duas tendências poéticas: a do pensamento por parataxe, no qual prepondera o substantivo, e a da abertura semântica via relações inusitadas, cujo objetivo é gerar tensão ou ambiguidade, entre palavras de classes gramaticais variadas . Aguardemos para ver como ele continuará lidando com tudo isso em seus trabalhos futuros. Como amostra do trabalho do escritor, ficam, a seguir, alguns de seus poemas.

*********************

Quando chove em vários sentidos,

Só a incompletude descreve cilcos.

As piores cercas são as disfarçadas de escada.

A ótica que vende violões.

Todo mundo sabe que isto é um tratado de etnografia.

VIDRO NÃO TEM GARANTIA

femme self-fatale

Sabe o que desamor conhece da luxúria? Nada.

Gosto do jeito que roupa fina fica quando pega chuva.

Meu cu não é um mito.

Gosto estético é fato que me perturba.

(…)

(de lança além do real só, 2011)

*********************

cataclisma ribeirinho, jota

mamona-cristal de gelo, tigrão

antena & retalhação, aspectos

de um m, antecipação,

incórdia com cabos suspensos,

decorar com essências o certo da queda,

o certo de vasto pequeno, certame-luz

alho, intriga, desavença, avenca, rum

tosse, costumes, ungido, calefador, pia

titica, ganância, volta, vento, mosga, lima

pingente, sorte, dinheiro, coquetel-bufunfa

um lado do dia não desmente a noite, letra

pior que o tormento só a cocama de morte,

cocama de morte azeda, lugubreza picada

aspa.

(de turnê a meio mastro, 2014)

*********************

tijolo de cimento
cadeado de braguilhas
pimenta azul

não desiste,
vai vir gostoso

(de pau mole, 2017)


[1] Longhin-Thomazi, Sanderléia Roberta. Junção e(m) aquisição: aspectos morfossintáticos e cognitivos. UNESP, Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, Departamento de Estudos Linguísticos e Literários, São José do Rio Preto, 2011. disponível em: https://www.marilia.unesp.br/Home/Pesquisa/Gpel/Artigos/Longhin-Thomazi_-_Juncao_em_aquisicao.pdf

[2] HEJINIAN, Lyn. The language of inquiry. Berkeley / Los Angeles: University of California Press, 2000. p. 93.

Nenhum comentário:

Postar um comentário