terça-feira, 16 de dezembro de 2014

my voice. [tradução]


(Oscar Wilde / de Poems, 1881)

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(2014 - 2016)

* Mais conhecido por sua obra em prosa e por seu teatro, o irlandês Oscar Wilde (1854 - 1900) também se dedicou à lida com o verso. A maior parte de sua produção poética está reunida em Poems, de 1881, e trata, entre outros assuntos, de impressões de viagem e revisitações a temas clássicos. Sua poesia está imbuída de temas relativos à visão "dândi" do mundo, aquela a qual dedicou sua vida de forma intensa, a ponto de ser mandado para a cadeia e para o trabalho forçado por cometer atos considerados "imorais" com vários rapazes. O poema aqui traduzido me parece representar bem a voragem de emoções, sofrimentos e superficialidades de uma experiência "dândi". 

sábado, 16 de agosto de 2014

song. [tradução]


(Robert Creeley / de Windows, 1990)

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(2014)

* Tentei, na tradução, manter a leve atmosfera ambígua. Na primeira estrofe, por exemplo, deixou-se de lado o corpo esquecido ou algo que “há” nele? Na segunda estrofe, aquilo pelo que se morreria é o corpo ou algo que “há” nele? Há uma tradução deste poema no livro A Um , que apresenta traduções de textos de Creeley feitas por Régis Bonvicino. 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

hist whist. [tradução]


(E. E. Cummings / de Tulips & Chimneys, 1923)

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(2014)

* uma das chansons innocentes não tão inocentes do livro Tulips & Chimneys. alude ao universo do Halloween. há uma edição ilustrada por Deborah Kogan Ray; há um vídeo que traz o poema e suas ilustrações. algumas musicalizações do poema: 1  & 2
** sobre a tradução: "hist" e "whisp" como pedidos de silêncio. twinle-toe passa a noção de ter pés ágeis. "hob-a-nob" tem o sentido de uma saudação comemorativa por se estar em boa companhia, mas as soluções tradutórias "viva" e "salve" me pareceram muito solares para o texto, daí a opção pelo incentivo "vamos", que também reforça a necessidade de fuga, que permeia o poema. "whisk", que pode ter o sentido de "mover-se rapidademente", traduzi como "foge",  no imperativo; a segunda pessoa do singular volta a aparecer na tradução de "yer" como "te", pois assim me soou melhor.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

spa.

Comecei a considerar mais do que suficientes os sete dias da Criação quando baixou a terceira tarde da semana que tinha decidido passar no spa médico Pedra Alta. Eu pensando nisso, a quarta das seis refeições sendo servida, meio tomate cereja, me cai no chão, a poucos metros da minha mesa, Clóvis, obeso mórbido, duzentos e tantos quilos, logo vi que morto, mas não me choquei antes de chupar minha saliva pra sentir o último travo do tomatinho azedo: era de se esperar, chegar naquele tamanho! Eu, bastante sobrepeso, sem dúvida, mas longe da morbidez daquele pobre diabo, ou melhor, rico, pra pagar os quatro mil semanais da instituição. Achei mau, não sei se pelo fato em si, não sei se pelo mau humor vindo da redução de 3000 pra 300 calorias diárias, não sei se pelas horas que faltavam pra próxima refeição, a quinta, dois caules de agrião e um dedo de suco de laranja. Enquanto acudiam o morto, eu chupava gelo, coisa que os nutricionistas lá inventaram pra imitar sorvete, que água era liberada.
*
Apesar da internação espontânea, clima de cárcere. Os médicos:  vocês não são hóspedes, são doentes. O grande número de gordos, depressão, é claro, ainda que num barco familiar. Eu, ainda, dos menos pesados. Tinha uns que nem sei como podiam andar, ou estar vivos. No primeiro dia, revista geral. Não perdoavam nem potes de shampoo, que já tinham levado leite condensado dentro: apesar da vontade de perder peso, alguns já na angústia da dieta radical,  já na tentativa de alguns cartuchos. A regra, clara: engordou ao fim do período programado, expulsão; nunca mais voltava.
*
O lugar tinha tudo, esteira, bicicleta, academia, pistas de caminhada, até um bosque vizinho, bonito, pra explorar, mas a angústia de não saciar a gula dinamitava qualquer vontade de fazer qualquer outra coisa que não fosse esperar a próxima refeição. Nessa leseira, a ideia logo no segundo dia: escrever, jeito de gastar a ansiedade, o que ler não oferecia. Pra ser justo: não inventei, segui o exemplo de Térsio, cento e setenta quilos dados aos livros.  Pelos motivos do estômago, eu achava tudo um lixo depois de algumas horas, rasgava, começava de novo. Fiz isso até o último dia, tanto que esse relato é em retrospecto, agora que, fora, continuo com a necessidade de gastar a ansiedade de algum modo, pra não achar em poucas horas os dez quilos perdidos numa semana.
*
Pelo quarto dia, o corpo já outro, algumas reações pela redução drástica de calorias, já tinham avisado, às vezes miragens, alucinações, tudo relativo a comida: uma pedra no jardim, uma melancia; uma rosa, uma maçã-do-amor; um salgueiro, algodão doce; e por aí ia. Alguns veteranos que estavam lá há semanas, ou até mesmo meses, riam, já acostumados. Através deles descobri a máfia. Achavam ruim, mas não condenavam os funcionários que vendiam, em off, uma maçã a cinquenta reais ou um quadrado de chocolate a cem: denunciar seria o fim de um possível cartucho pra uma crise nervosa ou depressiva, coisa comum por ali.
*
O quinto dia amanheceu bem, mas virou o mais difícil, tendo sido aquele em que um tal Hélio, cento e sessenta e quatro quilos, sobrinho de político ou coisa que o valha, foi pesado ao fim do seu período de internação, que queria renovar, e deu que tinha engordado. Sem cerimônia, a expulsão, que, com o perdão do trocadilho, ele não engoliu. Eu, depois, nos corredores, de orelhada, os caras falando , ele comprava da máfia, todo dia, ao menos uma pêra ou uma lasca de chocolate.  No começo da tarde, logo depois da terceira refeição, uma folha de alface sem tempero, duas rodelas de cenoura crua e uns grãos de soja, soou, ao longe um barulho estranho à calmaria do lugar: hélices. Aos poucos, remexidas as copas das árvores, um helicóptero. Todos curiosos, eufóricos, alguns instantes sem pensar em comida. No que o sol ressurgiu de detrás de uma nuvem, algo laminado, em queda. Todos acompanhando. Logo, mais e mais outro, e outro. Em automático, aos objetos.  Eu mesmo, confesso, dei alguns passos. Gelei ao perceber os bombons. Trufas, na certa. Não fosse meu cérebro lento, teria chafurdado na grama, como os outros,  disputando os doces. Ouvi, algumas horas depois, ser coisa do Hélio, recalcado, àquela altura já longe e na certa se entupindo de tudo que não podia.
*

Naquela madrugada tive pesadelos com as trufas: voavam pra dentro da minha boca como insetos. No dia seguinte, véspera da minha saída, maior rigor possível , mantive os doces longe da cabeça.  De noite, inventaram um tal baile do Havaí, mas como ninguém podia beber, só deu uma tenda com um globo de balada, uma caixa de som tocando lounge e três gordos sentados, chupando gelo.